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Vladimir Herzog

Vladimir Herzog foi jornalista, diretor de jornalismo da TV Cultura e militante clandestino do Partido Comunista Brasileiro que, em 25 de outubro de 1975, foi convocado pelo DOI-CODI de São Paulo, torturado e morto nas dependências do órgão — fato encoberto pela versão oficial de suicídio por enforcamento. O caso se tornou o ponto de inflexão mais visível da resistência à ditadura militar brasileira: a missa ecumênica celebrada na USP reuniu oito mil pessoas num ato de desobediência coletiva que o regime não conseguiu sufocar. A condenação da União pela morte de Herzog em 1978, obtida por ação civil de sua viúva, foi a primeira vez que o Estado brasileiro foi responsabilizado judicialmente por um assassinato político cometido durante o regime de exceção.

Por Redação BR Insider · 4 de julho de 2026

Quem era Vlado

Vladimir Herzog nasceu em 27 de junho de 1937 em Osijek, na então Iugoslávia, filho de família judaica que fugiu do nazismo e chegou ao Brasil em 1946. Naturalizou-se brasileiro, formou-se em filosofia pela USP e construiu carreira jornalística sólida — passou pela Folha de S.Paulo, pelo jornal O Estado de S. Paulo e pela BBC de Londres antes de assumir, em 1975, a diretoria de jornalismo da TV Cultura, emissora pública paulista. Era conhecido pela seriedade profissional e por um projeto editorial que pretendia modernizar o telejornalismo brasileiro.

Militava clandestinamente no Partido Comunista Brasileiro desde os anos 1960, convicção que nunca escondeu de seu círculo próximo, embora jamais exercesse atividade armada. O PCB da época era um partido de intelectuais urbanos, comprometido com a via eleitoral e muito distante da luta armada — o que não o isentava da perseguição sistemática dos órgãos de segurança do regime militar instaurado em 1964. Em meados de 1975, o general Ednardo D'Ávila Mello, comandante do II Exército, havia declarado guerra aberta ao PCB em São Paulo, desencadeando uma série de prisões de jornalistas e professores universitários.

Herzog tinha 38 anos, era casado com Clarice Ribeiro Herzog e pai de dois filhos pequenos. Seu nome circulava nas listas de investigados pelo DOI-CODI — o Destacamento de Operações de Informações–Centro de Operações de Defesa Interna —, braço mais brutal do aparato repressivo, que operava fora de qualquer controle judicial.

A convocação e a morte

Na manhã de 25 de outubro de 1975, Herzog recebeu comunicado do DOI-CODI de São Paulo solicitando seu comparecimento 'voluntário' para prestar esclarecimentos. Consultou advogados e decidiu atender à convocação por conta própria — uma tentativa de demonstrar boa-fé e evitar que sua família fosse usada como pressão. Apresentou-se ao quartel da rua Tomás Carvalhal, no Paraíso, por volta das oito e meia da manhã. Nunca mais saiu com vida.

Poucas horas depois, o II Exército divulgou nota oficial afirmando que Vladimir Herzog havia se suicidado por enforcamento na cela em que estava detido. A versão descrevia um homem que, após confessar sua militância no PCB, teria tirado a própria vida utilizando uma tira de tecido amarrada à grade da janela da cela — estando, segundo o comunicado, em posição de ajoelhado, o que tornava a mecânica do suposto enforcamento fisicamente improvável. O laudo do IML, assinado sob pressão institucional, referendou a versão oficial.

Relatos de presos que estavam no DOI-CODI naquele dia, colhidos posteriormente por pesquisadores e pela Comissão Nacional da Verdade, descrevem sessões de tortura com choques elétricos e espancamento. O tenente Freddie Perdigão Pereira, que assinou o boletim de ocorrência interno, e o major Carlos Alberto Brilhante Ustra — que décadas depois seria declarado torturador pela Justiça brasileira — integravam a estrutura de comando da unidade. Nenhum deles foi processado criminalmente à época.

A farsa da cena do crime

A fotografia divulgada pelo Exército como prova do suicídio tornou-se, ela própria, documento da falsificação. A imagem mostrava o corpo de Herzog pendurado com os pés a poucos centímetros do chão — o que, combinado com a tira de tecido estreita e a estrutura da janela descrita no laudo, não produziria força suficiente para causar morte por asfixia. Médicos legistas ouvidos anos depois, incluindo especialistas que examinaram as fotografias originais, atestaram que o padrão dos sulcos no pescoço era incompatível com enforcamento por suspensão parcial.

O laudo do Instituto Médico Legal de São Paulo foi elaborado em menos de duas horas — tempo tecnicamente insuficiente para um exame necroscópico completo. O perito responsável, posteriormente ouvido em depoimentos reservados, admitiu que as conclusões foram dirigidas. O corpo de Herzog foi entregue à família de madrugada, sem perícia independente, e o enterramento foi pressionado para ocorrer rapidamente, no cemitério israelita do Butantã, em conformidade com o rito judaico que determina sepultamento em até 24 horas.

A Comissão Nacional da Verdade, em seu relatório final de 2014, concluiu categoricamente que Vladimir Herzog foi torturado e morto por agentes do Estado brasileiro e que a encenação do suicídio foi produzida de forma deliberada para encobrir o assassinato. O laudo original do IML foi caracterizado como documento forjado. A CNV identificou pelo nome os agentes responsáveis pelas torturas, mas, por força da Lei de Anistia de 1979, nenhum deles foi submetido a processo penal.

A missa ecumênica na USP

Três dias após a morte de Herzog, em 31 de outubro de 1975, o cardeal dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, e o rabino Henry Sobel, líder da Congregação Israelita Paulista, celebraram conjuntamente uma missa ecumênica no pátio central da Universidade de São Paulo. O evento foi convocado em resposta direta à morte de Herzog e representou uma ruptura pública com o silêncio ao qual o regime havia acostumado as instituições. Era a primeira vez, desde o endurecimento do regime com o AI-5 em 1968, que uma manifestação daquela magnitude ocorria no país.

Cerca de oito mil pessoas compareceram — professores, estudantes, jornalistas, advogados, religiosos de diferentes denominações. O regime havia ameaçado implicitamente que o evento não deveria acontecer; dom Paulo ignorou as pressões e conduziu a cerimônia até o fim. O sermão de Arns, breve e direto, não nomeou torturadores nem convocou à rebelião: falou de dignidade humana e de responsabilidade coletiva. O efeito político foi devastador para o governo Geisel, que se via forçado a escolher entre reprimir abertamente uma celebração religiosa ou tolerar uma demonstração de força da sociedade civil.

A missa ficou conhecida como um dos primeiros momentos em que o isolamento do regime militar em relação à sua própria base social burguesa e eclesiástica se tornou visível a olho nu. O evento inaugurou uma aliança entre a Igreja Católica progressista e setores da sociedade civil que seria central na luta pela anistia e pela redemocratização.

A responsabilização judicial

Em 1976, Clarice Herzog contratou o advogado Luiz Eduardo Greenhalgh e ingressou com ação ordinária contra a União Federal na Justiça Federal de São Paulo, pedindo reconhecimento judicial de que seu marido havia sido morto pelo Estado e indenização por danos morais e materiais. Era uma estratégia de alto risco — nenhuma ação dessa natureza havia prosperado nos tribunais brasileiros desde o golpe de 1964 — mas Clarice compreendia que o processo tinha valor político independentemente do resultado.

Em 27 de outubro de 1978 — três anos e dois dias após a morte de Vlado —, o juiz federal Márcio José de Moraes proferiu sentença histórica: declarou que Vladimir Herzog havia sido morto nas dependências do DOI-CODI, que a versão do suicídio era falsa, e condenou a União ao pagamento de indenização à família. Foi a primeira condenação judicial do Estado brasileiro por assassinato político cometido durante a ditadura militar. A sentença foi mantida em segunda instância.

O impacto da decisão extrapolou o processo individual. Ela criou jurisprudência e precedente simbólico que seria invocado em dezenas de ações posteriores movidas por famílias de mortos e desaparecidos políticos. Para os advogados de direitos humanos que atuavam no período, a vitória judicial na 'causa Herzog' provou que era possível derrotar o Estado nos seus próprios tribunais — mesmo num ambiente de pressão e intimidação institucional.

Legado e reconhecimento tardio

Em 2012, a Justiça Federal de São Paulo acolheu pedido da família e determinou a alteração da certidão de óbito de Vladimir Herzog, substituindo a causa da morte de 'asfixia mecânica por enforcamento' para 'lesões e maus-tratos sofridos em dependência do II Exército — DOI-CODI'. A certidão retificada foi expedida em 2013, tornando-se o primeiro documento oficial do Estado brasileiro a reconhecer formalmente que Herzog foi assassinado por agentes públicos.

A Comissão Nacional da Verdade, criada pela Lei 12.528/2011 e instalada em 2012, dedicou seção específica ao caso Herzog em seu relatório final, entregue em dezembro de 2014. A CNV nomeou os agentes responsáveis, reconstruiu a cadeia de comando e recomendou ao Ministério Público Federal que avaliasse a possibilidade de responsabilização criminal — recomendação que esbarrou na interpretação do STF sobre a Lei de Anistia de 1979.

O Prêmio Vladmir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, concedido anualmente desde 1979, é uma das mais tradicionais honrarias da imprensa brasileira. O apelido 'Vlado', que seus colegas usavam em vida, tornou-se a forma como o Brasil o reconhece — uma intimidade póstuma que condensa tanto o afeto quanto a raiva de quem não aceita o esquecimento.

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