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Verbete

Operação Condor: a rede de repressão do Cone Sul

A Operação Condor foi uma rede clandestina de cooperação repressiva entre as ditaduras do Cone Sul, fundada em novembro de 1975 em Santiago do Chile, com participação formal do Brasil a partir de 1976. Por meio do SNI, CIEX, CIE e DOPS, o regime brasileiro monitorou exilados no exterior, entregou e recebeu presos políticos de países vizinhos, e colaborou em operações que resultaram em mortes e desaparecimentos documentados. Os Arquivos do Terror do Paraguai, descobertos em 1992, confirmaram a existência coordenada da rede. A Comissão Nacional da Verdade concluiu, em 2014, que o Estado brasileiro participou de graves violações a direitos humanos no âmbito da Condor.

Por Luiz Lessa · 3 de julho de 2026

O que foi a Operação Condor

A Operação Condor — também referida como Plano Condor — foi uma aliança clandestina entre as ditaduras militares do Cone Sul para perseguir, sequestrar, torturar, assassinar e fazer desaparecer opositores políticos além das fronteiras nacionais. Seus membros fundadores foram Argentina, Bolívia, Chile, Paraguai e Uruguai, com o Brasil integrando a operação formalmente a partir de 1976, após ter participado da reunião de fundação como observador.

A operação foi estabelecida oficialmente em 25 de novembro de 1975, em reunião secreta realizada em Santiago do Chile, convocada por Manuel Contreras, chefe da DINA — a polícia secreta do regime de Augusto Pinochet. O acordo previa três fases progressivas: a primeira criou um banco de dados compartilhado para troca de informações sobre militantes e movimentos sociais; a segunda coordenou operações de espionagem, prisão, interrogatório e tortura; a terceira autorizou grupos de agentes a operar em terceiros países para eliminar alvos específicos.

As estimativas sobre o total de mortes variam entre 50 mil e 80 mil, incluindo mortos, desaparecidos e presos sob tortura nas ditaduras da região. Pesquisadores como John Dinges e Francesca Lessa documentaram mais de 400 assassinatos transfronteiriços comprovados. Os Arquivos do Terror do Paraguai, descobertos em 1992, listam pelo menos 763 casos com documentação direta.

O papel do Brasil: integração e estrutura de espionagem

O Brasil chegou à reunião fundadora de novembro de 1975 na condição de observador — postura que reflete tanto o cálculo político do regime quanto o fato de que a cooperação bilateral já ocorria de forma descentralizada há anos. A integração formal se deu em 1976, e a Comissão Nacional da Verdade concluiu que órgãos e agentes da ditadura brasileira participaram de atividades que resultaram em graves violações aos direitos humanos de cidadãos brasileiros no exterior e de estrangeiros no Brasil.

Os organismos brasileiros diretamente envolvidos foram o Serviço Nacional de Informações (SNI), o Centro de Informações do Exterior (CIEX — subordinado ao Itamaraty), o Centro de Informações do Exército (CIE), as adidâncias militares nas embaixadas, o DOPS e a Polícia Federal. O CIEX foi criado em 1966 e concentrou sua vigilância sobre exilados no Uruguai, Chile, Argentina e Portugal, produzindo mais de 20 mil páginas de relatórios que permaneceram não catalogados por décadas no Arquivo do Itamaraty.

Ao contrário de Chile e Argentina, o Brasil não criou uma estrutura de comando centralizada exclusiva para a Condor, mas a cooperação ocorreu de forma efetiva e sistemática por meio de canais bilaterais entre agências. O DOPS de Porto Alegre, por exemplo, mantinha articulação direta com os serviços de segurança de Montevidéu desde antes da fundação formal da operação.

Casos documentados: brasileiros mortos e estrangeiros entregues

O caso mais célebre de brasileiro morto no exterior no contexto da Condor é o do pianista Francisco Tenório Cerqueira Júnior, o Tenorinho. Ele desapareceu em Buenos Aires em 18 de março de 1976 — três dias antes do golpe militar argentino — durante uma turnê de Vinícius de Moraes e Toquinho. Depoimentos obtidos posteriormente indicam que Tenório foi levado à ESMA (Escola de Mecânica da Armada), torturado e executado. A identificação forense de seus restos mortais permanecia como pendência histórica no momento de elaboração deste verbete.

Em dezembro de 1973, o delegado Sérgio Paranhos Fleury coordenou a operação que sequestrou, em território argentino, o major Joaquim Pires Cerveira e João Batista Rita. Ambos foram transferidos ao Brasil e desapareceram. A operação foi realizada com a cooperação da polícia argentina, configurando troca transnacional de presos.

O caso mais documentado judicialmente de estrangeiros sequestrados em solo brasileiro é o de Lilián Celiberti e Universindo Rodríguez Díaz. Em 12 de novembro de 1978, militares uruguaios — com a colaboração direta do DOPS gaúcho e da Polícia Federal — invadiram um apartamento em Porto Alegre e sequestraram o casal e dois filhos de Celiberti, de 3 e 7 anos. Os repórteres Luiz Cláudio Cunha e J.B. Scalco, da revista Veja, que haviam recebido denúncia anônima, flagraram a operação. A cobertura jornalística gerou repercussão internacional que obrigou a ditadura uruguaia a manter os sequestrados vivos. Dois militares uruguaios foram condenados pelo crime em 2022.

Os Arquivos do Terror do Paraguai: a prova documental

Em 22 de dezembro de 1992, o juiz paraguaio José Agustín Fernández ordenou a abertura de uma dependência policial em Lambaré, município próximo a Assunção, atendendo a pedido do advogado Martín Almada, que investigava a morte de sua esposa. No local foram encontrados aproximadamente 320 mil documentos produzidos pela ditadura de Alfredo Stroessner ao longo de décadas — um acervo que ficaria conhecido como os Arquivos do Terror.

O material inclui fichas policiais, listas de entradas e saídas de presos, controles de partidos políticos e correspondência entre os serviços de segurança dos países do Cone Sul. Para a Operação Condor, os arquivos constituíram a prova documental mais robusta de sua existência como rede coordenada: revelam a articulação efetiva entre os governos do Brasil, Chile, Argentina e Uruguai, com trocas de informação nominais sobre militantes identificados.

O acervo está preservado no Centro de Documentación y Archivo para la Defensa de los Derechos Humanos, em Assunção, e foi declarado Memória do Mundo pela UNESCO em 2009. A CNV utilizou os Arquivos do Terror como fonte primária para parte de suas conclusões sobre a participação brasileira.

O papel dos Estados Unidos: CIA e suporte operacional

Documentos desclassificados pelos Estados Unidos revelam que a CIA tinha conhecimento detalhado da Operação Condor desde sua concepção. Um documento da agência datado de junho de 1976 descreve reunião de início de 1974 em Buenos Aires, quando oficiais de segurança de Argentina, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia se encontraram para preparar ações coordenadas. A CIA acompanhou e documentou a constituição da rede.

O papel de Henry Kissinger — secretário de Estado de Nixon e Ford entre 1973 e 1977 — é documentado em despachos diplomáticos desclassificados em 2003. Vernon Walters, diretor-adjunto da CIA, se encontrou com Manuel Contreras, o chefe da DINA e principal arquiteto da Condor, em encontros que pesquisadores situam no processo de preparação da operação. O suporte norte-americano incluiu planejamento, coordenação, treinamento em técnicas de interrogatório e apoio técnico de comunicações.

A infraestrutura de comunicações seguras da Condor — conhecida como Condortel — foi instalada com equipamentos e assessoria técnica dos Estados Unidos. A questão do envolvimento direto na autorização de assassinatos específicos permanece objeto de disputa entre historiadores. O que os documentos desclassificados confirmam de forma inequívoca é que os Estados Unidos não apenas sabiam da existência da Condor, mas forneceram os meios materiais e tecnológicos que tornaram possível sua operação em escala regional.

A Comissão Nacional da Verdade e o legado jurídico

A Comissão Nacional da Verdade dedicou capítulo específico às conexões internacionais da ditadura, com foco na Operação Condor. A CNV concluiu que o Brasil participou ativamente da rede por meio de organismos como o SNI, o CIEX, o CIE, o DOPS e as adidâncias militares, e que essa participação resultou em mortes e desaparecimentos de brasileiros no exterior e de estrangeiros em território nacional.

O relatório identificou 434 mortos e desaparecidos políticos durante a ditadura, e o grupo de trabalho Operação Condor apurou 17 casos de brasileiros desaparecidos em países vizinhos e 8 casos de estrangeiros desaparecidos no Brasil. A comissão recomendou que o Estado brasileiro reconhecesse sua responsabilidade nesses casos, o que implicaria, entre outras medidas, a abertura irrestrita de arquivos ainda classificados da época.

O impacto jurídico da Condor foi assimétrico na região. Argentina e Chile realizaram julgamentos de ex-agentes. No Brasil, a Lei de Anistia de 1979 — interpretada pelos tribunais como abrangendo também os crimes cometidos por agentes do Estado — impediu a responsabilização criminal dos perpetradores. Em 2010, o STF confirmou essa interpretação por 7 votos a 2, em decisão criticada pela Corte Interamericana de Direitos Humanos. O debate sobre a revisão dessa jurisprudência permanece aberto.

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