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Movimento Estudantil

Entre 1964 e 1968, o movimento estudantil foi a principal força de oposição de rua ao regime militar, ocupando o vácuo deixado pela paralisia dos partidos políticos e dos sindicatos após o golpe. A Passeata dos Cem Mil, em junho de 1968, representou o pico dessa mobilização e expôs ao regime a fragilidade de sua legitimidade social. O Congresso de Ibiúna, em outubro do mesmo ano, e o subsequente AI-5 decretaram o fim da resistência estudantil organizada, empurrando uma geração inteira para a clandestinidade ou o exílio.

Por Redação BR Insider · 4 de julho de 2026

A UNE antes e depois do golpe

Fundada em 1937, a União Nacional dos Estudantes chegou ao golpe de 1964 como uma das organizações de maior capilaridade política no país, com atuação decisiva nas campanhas pelas reformas de base do governo João Goulart. Sua sede no Rio de Janeiro foi incendiada por grupos civis na madrugada de 1º de abril de 1964, horas depois da deflagração do movimento militar, num ato que os próprios golpistas trataram como anúncio do que estava por vir.

Colocada na ilegalidade pelo regime logo em seguida, a UNE operou na clandestinidade ao longo de toda a primeira fase da ditadura, realizando congressos secretos em locais alternados e mantendo estruturas paralelas de organização. A entidade que o regime tentou substituir por estruturas controladas continuou a ser o referencial simbólico e político para as novas gerações que chegavam às universidades na segunda metade dos anos 1960.

O papel histórico da UNE nesse período não foi apenas de resistência: foi de formação. Figuras que dominariam a política brasileira nas décadas seguintes — de José Dirceu a José Serra, de Luís Travassos a Vladimir Palmeira — forjaram sua visão política e sua capacidade de organização coletiva dentro das estruturas estudantis, muitas vezes em condições de semiclandestinidade e sob vigilância permanente dos órgãos de informação do regime.

1968 — o ano das ruas

O assassinato do estudante Edson Luís de Lima Souto, de 18 anos, pela Polícia Militar do Rio de Janeiro durante uma manifestação no restaurante Calabouço em 28 de março de 1968, foi o estopim que transformou a oposição difusa ao regime em mobilização de massa. O velório de Edson Luís na Assembleia Legislativa do Rio reuniu milhares de pessoas; sua morte, documentada e noticiada apesar da censura parcial ainda em vigor, deu ao movimento estudantil um mártir concreto.

A Passeata dos Cem Mil, realizada no Rio de Janeiro em 26 de junho de 1968, reuniu estudantes, intelectuais, artistas e setores da classe média numa demonstração de força sem precedentes desde o golpe. Organizada num contexto em que o regime militar negociava internamente entre a linha dura e os moderados, a passeata expôs ao governo a amplitude da rejeição social ao autoritarismo. Figuras como Chico Buarque, Gilberto Gil e Dom Hélder Câmara compuseram o palanque, conferindo ao ato uma dimensão cultural e moral que ia além da política partidária.

O ano de 1968 não era apenas brasileiro. Paris fervia em maio, Praga resistia em agosto, e a Cidade do México enterrava seus estudantes em outubro em Tlatelolco. O movimento estudantil brasileiro estava consciente desse clima internacional e o incorporava à sua retórica, ao mesmo tempo em que enfrentava uma especificidade local: uma ditadura militar com aparato repressivo já consolidado e uma direita civil organizada que pressionava por maior endurecimento.

O Congresso de Ibiúna e os 1.200 presos

Em outubro de 1968, a UNE convocou seu 30º Congresso em Ibiúna, pequena cidade do interior paulista, como tentativa de reunir lideranças estudantis de todo o país de forma clandestina. A escolha do local e o sigilo das operações não foram suficientes: infiltrados nos grupos de viagem e a ação coordenada do DOPS de São Paulo resultaram na maior prisão em massa de estudantes da história do regime. Aproximadamente 1.200 jovens foram detidos numa única operação, entre eles praticamente toda a direção nacional da UNE.

Entre os presos em Ibiúna estava José Dirceu, então presidente da UNE, que seria mais tarde trocado por um refém no sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick em setembro de 1969 e partiria para o exílio em Cuba. A dimensão do golpe sofrido em Ibiúna foi organizacional e geracional ao mesmo tempo: o regime decapitou de uma vez a liderança estudantil que havia construído o ciclo de mobilizações de 1968.

A atomização que se seguiu ao Congresso de Ibiúna foi acelerada pelo AI-5, decretado em 13 de dezembro de 1968, que fechou o Congresso Nacional, suspendeu habeas corpus e autorizou a cassação de mandatos e direitos políticos por prazo indeterminado. Com o AI-5, o regime encerrou o ciclo em que a resistência estudantil ainda encontrava brechas legais para operar e empurrou os quadros remanescentes para escolhas radicais.

Estudantes nas organizações armadas

A derrota de Ibiúna e o choque do AI-5 produziram uma diáspora política que redirecionou parte significativa da militância estudantil para as organizações de luta armada que proliferavam no início dos anos 1970. A Ação Libertadora Nacional (ALN), liderada por Carlos Marighella, o Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) absorveram quadros que concluíram, diante da brutalidade do regime, que os métodos de mobilização de massa estavam temporariamente esgotados.

A trajetória desses militantes é, em grande medida, a trajetória da geração de 1968. Muitos haviam sido líderes de diretórios acadêmicos ou participado das grandes manifestações. A entrada para a clandestinidade implicava corte com a família, adoção de identidade falsa, treinamento em guerrilha urbana e, para os que sobreviveram às operações do DOI-CODI, a experiência da tortura sistemática nos porões do regime.

O balanço dessa radicalização foi trágico. A repressão desmantelou as principais organizações armadas entre 1969 e 1972. Centenas de militantes foram mortos, desaparecidos ou exilados. O relatório da Comissão Nacional da Verdade identificou que grande parte dos 434 mortos e desaparecidos políticos reconhecidos pelo Estado eram jovens cuja entrada na resistência havia se dado pelo movimento estudantil, tornando impossível separar a história do movimento da história da violência de Estado.

Repressão nas universidades

Paralelamente à repressão nas ruas, o regime operou uma depuração sistemática dentro das universidades públicas. As Assessorias de Segurança e Informações (ASIs), instaladas em cada instituição federal de ensino superior, funcionavam como braços internos do SNI, produzindo dossiês sobre estudantes e professores, monitorando reuniões de diretórios acadêmicos e fornecendo ao aparato repressivo as informações necessárias para prisões e demissões.

O Decreto-Lei 477, de fevereiro de 1969, foi o instrumento jurídico central da repressão universitária. Definiu como 'infração disciplinar' uma série ampla de comportamentos políticos — participar de manifestações, distribuir material considerado subversivo, ausentar-se para participar de atos públicos — e estabeleceu penalidades que incluíam expulsão de estudantes e demissão de professores com proibição de reingresso no serviço público por três anos.

Centenas de professores foram cassados ou forçados ao exílio ao longo do regime. Entre os atingidos estavam figuras como Florestan Fernandes, Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Fernando Henrique Cardoso — um mapeamento que indica que o regime identificou corretamente nas universidades o núcleo de produção das ideias que o contestavam.

O movimento nos anos 1970–80

O ressurgimento do movimento estudantil organizado foi um dos primeiros sinais do esgotamento político do regime ainda na primeira metade dos anos 1970. Os Diretórios Centrais dos Estudantes (DCEs), que o regime havia transformado em entidades tuteladas, começaram a ser reconquistados por chapas de oposição a partir de 1975–76, num processo que a ditadura tentou frear sem conseguir deter. A eleição de DCEs livres em universidades como a USP, a UNICAMP e a UFRJ funcionou como termômetro político em um período em que qualquer outra forma de organização opositora ainda era severamente reprimida.

Em 1977, as universidades brasileiras foram palco de uma das primeiras grandes manifestações de rua desde o AI-5. O estopim foi o fechamento pelo governo federal da PUC-SP durante uma manifestação estudantil em setembro, ato que gerou solidariedade de outras instituições e transformou um conflito localizado em mobilização nacional. As greves e passeatas de 1977 marcaram a reaparição da rua como espaço político legítimo e anteciparam o ciclo que culminaria nas greves do ABC no ano seguinte.

Na virada dos anos 1980, o movimento estudantil integrou-se organicamente às campanhas pelas Diretas Já e pela anistia ampla, geral e irrestrita, participando ativamente da refundação da UNE em 1979 no congresso de Salvador — o primeiro congresso aberto da entidade desde 1964. A geração que reconstruiu o movimento nesse período tinha memória da repressão como herança, mas também a percepção de que o regime havia sido derrotado politicamente antes de ser derrotado institucionalmente.

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