Igreja Católica e Resistência
A Igreja Católica brasileira percorreu uma trajetória paradoxal no período ditatorial: em abril de 1964, a CNBB saudou o golpe como 'libertação do perigo comunista' e catedrais celebraram Te Deum em gratidão às Forças Armadas. A partir do Concílio Vaticano II e, sobretudo, da Conferência de Medellín (1968), uma ala crescente do episcopado inverteu esse alinhamento e transformou dioceses, comissões e comunidades de base no principal espaço institucional de resistência civil ao regime. Essa virada colocou bispos, padres e religiosas na linha de fogo da repressão, ao mesmo tempo que produziu o maior acervo documental sobre crimes do Estado que o Brasil já reuniu.
Por Redação BR Insider · 4 de julho de 2026
A Igreja e o golpe de 1964
Quando tanques saíram às ruas na madrugada de 1º de abril de 1964, a hierarquia católica brasileira não estava entre os surpreendidos. Setores do episcopado, liderados por figuras como Dom Jaime de Barros Câmara, cardeal do Rio de Janeiro, vinham há meses articulando apoio a uma intervenção militar que freasse o avanço do 'comunismo ateu' percebido nas reformas de base de João Goulart. A CNBB emitiu nota oficial saudando o movimento como resposta legítima 'ao clamor de todo o povo brasileiro'.
As Marchas da Família com Deus pela Liberdade, realizadas em março de 1964, foram organizadas em grande medida por redes católicas femininas ligadas à hierarquia. Estimativas conservadoras apontam para 500 mil participantes em São Paulo e 1 milhão no Rio de Janeiro. A simbologia religiosa — rosários, estandartes, hinos — conferia à mobilização o caráter de cruzada contra o bolchevismo.
Nos dias imediatamente seguintes ao golpe, catedrais de todo o país celebraram Te Deum de ação de graças. A associação entre altar e espada expressava décadas de anticomunismo militante cultivado pela Igreja brasileira desde a Revolução de 1930, sistematizado por figuras como Dom Sebastião Leme e o padre Leonel Franca S.J. O golpe parecia, para essa geração episcopal, a vitória de uma batalha espiritual.
A virada progressista
O Concílio Vaticano II (1962–1965) introduziu na teologia católica a noção de 'leitura dos sinais dos tempos' e deslocou o eixo eclesiológico para a 'Igreja dos pobres'. Quando, em 1968, a Segunda Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano reuniu-se em Medellín, na Colômbia, os documentos finais denunciaram a 'violência institucionalizada' das estruturas de poder e convocaram a Igreja à opção preferencial pelos pobres.
Dom Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife desde 1964, tornou-se a encarnação mais visível dessa virada. Apelidado de 'bispo vermelho' pela direita, Hélder denunciou torturas em fóruns europeus quando o governo militar proibiu que seu nome fosse mencionado na imprensa brasileira — censura jamais formalmente publicada, mas efetivamente cumprida pelas redações. Em 1970, foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz.
A Teologia da Libertação, sistematizada pelo peruano Gustavo Gutiérrez em 1971 e desenvolvida no Brasil por Leonardo Boff, Frei Betto e Carlos Mesters, forneceu o arcabouço intelectual para a pastoral de base. As Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) multiplicaram-se pelo país: em 1974 eram cerca de 40 mil grupos, reunindo camponeses sem-terra, favelados e operários em torno da leitura bíblica e da organização coletiva. Para o regime, as CEBs eram células de subversão disfarçadas de catequese.
Dom Paulo Arns e a Igreja de São Paulo
Nomeado arcebispo de São Paulo em 1970, Dom Paulo Evaristo Arns transformou a maior arquidiocese do hemisfério sul em uma trincheira institucional contra o arbítrio. Franciscano de formação, Arns combinava ascetismo pessoal com habilidade política rara: mantinha canais abertos com o governo enquanto acolhia nos salões da Cúria familiares de presos, advogados de perseguidos políticos e jornalistas censurados. A Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese, fundada em 1972, tornou-se o principal organismo civil de documentação de torturas no país.
O assassinato do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI paulistano, em outubro de 1975, provocou a resposta mais contundente da Igreja ao terror de Estado. Dom Paulo celebrou missa ecumênica ao lado do rabino Henry Sobel e do pastor James Wright, três dias após a morte de Herzog. A presença de 8 mil pessoas num ato convocado em menos de 72 horas foi uma demonstração de força simbólica que o regime não conseguiu ignorar.
O projeto Brasil: Nunca Mais, concebido em 1979 e concluído em 1985, foi talvez a maior operação clandestina de documentação já realizada em solo brasileiro. Com o apoio sigiloso de Dom Paulo e financiamento do Conselho Mundial de Igrejas, uma equipe de advogados e religiosos microfilmou mais de um milhão de páginas de processos do Superior Tribunal Militar e deles extraiu o retrato sistemático da tortura institucionalizada. O livro resultante foi lançado em 1985 e tornou-se best-seller imediato.
CLAMOR e a denúncia internacional
Em 1978, com o Cone Sul mergulhado em ditaduras sincronizadas pela Operação Condor, um grupo de religiosas e leigos ligados à Cúria paulistana criou o CLAMOR — Comitê de Defesa dos Direitos Humanos para os Países do Cone Sul. Sediado fisicamente na sede da Arquidiocese de São Paulo, o comitê reunia refugiados argentinos, chilenos, uruguaios e paraguaios que cruzaram a fronteira para o Brasil e precisavam de documentação, proteção e canal para denunciar desaparecimentos.
A metodologia do CLAMOR era tanto pastoral quanto investigativa: entrevistava sobreviventes, cruzava listas de desaparecidos entre os países do Cone Sul e repassava as informações à Anistia Internacional, à CIDH e ao Alto Comissariado da ONU para Refugiados. Em 1979, o comitê localizou crianças argentinas sequestradas pela Junta Militar e entregues a famílias de militares — informação que alimentou as investigações das Avós da Praça de Maio.
A escolha de abrigar o CLAMOR sob o guarda-chuva da Igreja não foi acidental: dava ao comitê proteção jurídica e moral que uma organização laica não teria no contexto repressivo da época. Para a ditadura brasileira, invadir fisicamente a Cúria ou prender membros do clero era um passo de consequências imprevisíveis, tanto domesticamente quanto diante da Santa Sé. Essa imunidade relativa foi explorada conscientemente por Dom Paulo e seus colaboradores como escudo para dezenas de perseguidos políticos.
Repressão à Igreja
O escudo institucional da Igreja não era impenetrável. Entre 1964 e 1985, ao menos doze religiosos foram assassinados ou mortos sob custódia do Estado brasileiro, e dezenas foram torturados, presos ou expulsos do país. O caso mais brutal e documentado é o do padre João Bosco Penido Burnier, jesuíta, baleado na cabeça em outubro de 1976 pelo delegado da Polícia Federal em Ribeirão Cascalheira (MT) enquanto protestava contra a tortura de duas mulheres presas. Dom Pedro Casaldáliga estava ao seu lado no momento do tiro.
Padre Rudi Lunkenbein, missionário salesiano alemão, foi assassinado em julho de 1976 na reserva bororo de Merure (MT) por pistoleiros a serviço de fazendeiros que disputavam as terras indígenas. A ameaça aos bispos foi sistemática: Dom Adriano Hipólito, bispo de Nova Iguaçu, foi sequestrado em setembro de 1976, pintado de vermelho e abandonado nu na estrada — ação atribuída ao Comando de Caça aos Comunistas (CCC).
Dom Hélder Câmara viveu sob vigilância permanente da ditadura: seu assessor, padre Antônio Henrique Pereira Neto, foi torturado e assassinado em 1969, com sinais de ritual de terror, em mensagem explícita ao arcebispo. Dom Tomás Balduíno, bispo de Goiás Velho e presidente do Conselho Indigenista Missionário (CIMI), recebeu ameaças de morte reiteradas ao longo dos anos 1970.
Legado: da resistência à democracia
A Comissão de Justiça e Paz foi o mais duradouro instrumento institucional da Igreja na defesa de direitos. Ao longo dos anos 1970 e 1980, as comissões diocesanas atuavam como escritórios de advocacia popular: orientavam familiares de presos, acompanhavam habeas corpus, documentavam irregularidades processuais e publicavam boletins que circulavam nos limites estreitos da censura. Em muitos municípios do interior, eram o único espaço público onde a palavra 'tortura' podia ser pronunciada em voz alta.
As Comunidades Eclesiais de Base tiveram papel decisivo na gestação de forças políticas que moldaram a redemocratização. O Partido dos Trabalhadores, fundado em 1980, emergiu da confluência entre sindicalismo operário do ABC paulista, intelectuais de esquerda e a pastoral operária das CEBs — que forneceu não apenas militantes de base, mas uma cultura organizacional de assembleísmo e deliberação coletiva.
O legado mais ambíguo dessa trajetória é a própria Igreja que saiu do processo. A Santa Sé, sob João Paulo II, nomeou bispos conservadores para dioceses-chave nos anos 1980, dividiu a Arquidiocese de São Paulo em cinco partes em 1989 — interpretado amplamente como manobra para reduzir o poder de Dom Paulo — e emitiu notificações restritivas a Leonardo Boff em 1984 e 1985. A Teologia da Libertação foi contida, mas não apagada. O que permanece é o acervo: o Brasil: Nunca Mais, os arquivos da Comissão de Justiça e Paz, a memória viva de uma instituição que, por uma década e meia, fez do batismo um ato político.
Acervos consultados