Quando a Polícia Rodoviária Federal bloqueou rodovias em outubro de 2022 — quatro dias antes do segundo turno das eleições presidenciais —, a corporação exibia uma imagem cuidadosamente construída: a de uma polícia leal, disciplinada, ideologicamente alinhada com o governo que a havia mimado por quatro anos. O então presidente Jair Bolsonaro havia concedido reajuste salarial à categoria em plena campanha eleitoral. O ex-diretor-geral Silvinei Vasques havia pedido votos explicitamente para Bolsonaro nas redes sociais.

Os dados disciplinares do próprio governo federal contam uma história diferente.

A Polícia Rodoviária Federal é, desde 2018, o órgão federal com mais expulsões registradas no Cadastro de Expulsões da Administração Federal (CEAF): 213 policiais demitidos ou cassados (deduplicado por nome e data). Acima do INSS. Acima da Polícia Federal. Acima da Receita Federal.

Os dois anos com mais demissões foram 2019 e 2020 — os primeiros dois anos do governo Bolsonaro. O mesmo período em que a PRF era celebrada como símbolo de autoridade.

Propina, improbidade e uma conta que demorou 20 anos a chegar

Os dados cruzados entre o CEAF e o sistema CGU-PAD — banco de processos administrativos disciplinares do governo federal com 90 mil registros desde 2003 — revelam o que cada policial fez.

117 casos foram enquadrados na Lei de Improbidade Administrativa (Lei 8.429), o mesmo instrumento jurídico usado na Operação Lava Jato. Não são faltas disciplinares menores: improbidade administrativa implica dano ao erário público, enriquecimento ilícito ou violação sistemática de princípios da administração pública.

Outros 224 casos foram enquadrados no Artigo 117 da Lei 8.112 — a lista de proibições do servidor público, que inclui receber propina, manter empresa paralela com atividade relacionada ao cargo e praticar usura.

Mas o dado que mais chama atenção não é o volume. É o tempo.

O processo 08657.000543/2013-47 foi instaurado em novembro de 2013 contra um grupo de policiais rodoviários do Mato Grosso do Sul por recebimento de propina e utilização indevida de recursos públicos. As demissões foram publicadas no Diário Oficial da União em 21 de dezembro de 2020 — sete anos depois. Foram demitidos de uma vez: Semy Gama Aride, Moises Pereira Nunes, Alexandre Amorim Vieira, Victor Felippe de Oliveira, Renato Regly da Costa Ferreira, Marcelo Vasconcellos de Oliveira e Roberto Freire da Costa. Sete policiais. Um esquema. Sete anos de salário enquanto o processo tramitava.

O caso extremo é de José Dias de Melo. Seu processo foi aberto em agosto de 2001. A demissão foi publicada em maio de 2021. Vinte anos.

Os que voltaram — e foram demitidos de novo

Entre os 213 policiais expulsos, há um grupo que aparece mais de uma vez na lista: demitidos, reintegrados por decisão judicial, e demitidos novamente quando o processo foi mantido nas instâncias superiores.

Marco Antonio Domingues é o caso mais documentado. Aparece em portarias de demissão em novembro de 2019, maio de 2020, novembro de 2020, outubro de 2021 e, mais recentemente, em fevereiro de 2026 — seis anos após a primeira demissão, ainda acumulando processos. Em pelo menos dois deles, o assunto registrado é explícito: recebimento de propina e utilização indevida de recursos públicos.

Jean Carlos de Moraes segue o mesmo padrão. Primeira demissão em abril de 2020, novos processos em maio de 2020, novembro de 2020 e fevereiro de 2026. Domingues e Moraes aparecem juntos em dois dos processos — vinculados ao mesmo esquema, punidos na mesma portaria, e ainda produzindo novas portarias de demissão em 2026.

Marcelo Vieira Zimerer e Edmar Alves Moura aparecem quatro vezes cada, entre 2023 e 2024, sempre pelo mesmo motivo: propina. Foram demitidos, recorreram, e cada instância do recurso gerou uma nova portaria. Os processos mais recentes deles foram julgados definitivamente apenas em novembro de 2024.

O esquema de 2022

Em 22 de novembro de 2022 — três semanas após o segundo turno —, o Supremo Tribunal Federal determinou a exoneração do diretor-geral da PRF, Silvinei Vasques, por interferência política eleitoral. O processo administrativo interno que deveria investigar os policiais que participaram das blitz seletivas ainda não foi concluído.

Os dados disciplinares permitem uma verificação que nenhuma CPI fez: quantos dos 213 policiais demitidos por corrupção estavam ativos em outubro de 2022, quando os bloqueios aconteceram? A resposta exige cruzar as datas de demissão com os registros de lotação — informação disponível via LAI.

O que já é possível verificar: ao menos três policiais que aparecem na lista de expulsos têm processos com datas de instauração anteriores a 2022 e demissões publicadas após as eleições — o que significa que estavam na ativa durante o período eleitoral enquanto respondiam a processos disciplinares por corrupção.

2025: uma demissão inédita

Em abril de 2025, dois policiais rodoviários foram demitidos com um enquadramento que nunca havia aparecido nas portarias da PRF: "Uso da força por agente público de segurança pública", com base no Decreto 12.341/2024 — regulamentação assinada pelo governo Lula em dezembro de 2024 sobre uso de força letal por agentes de segurança.

Cesar Augusto Vasconcellos de Menezes e Alexandre Guidini, ambos vinculados a processo instaurado em julho de 2016, foram os primeiros policiais rodoviários federais demitidos com esse enquadramento específico. O decreto criou o instrumento. O governo o usou menos de cinco meses depois.

O que os números não dizem — e o que dizem

Os dados do CEAF cobrem expulsões publicadas desde 2018. Isso não significa que não houve demissões antes — significa que a API do Portal da Transparência só passou a disponibilizar os registros de forma estruturada a partir daquele ano. O CGU-PAD, que vai a 2003, mostra que a PRF sempre teve processos disciplinares. O que os dados de 2018 em diante permitem, pela primeira vez, é ter nome, cargo, processo e fundamento legal em uma base consultável.

São 213 policiais. Com nome. Com portaria. Com o número do processo disciplinar. Com o artigo da lei que violaram.

A PRF tem hoje cerca de 14 mil servidores. 213 demissões em oito anos representam 1,5% do efetivo — uma taxa que, isolada, pode parecer baixa. Mas quando se observa que a corporação lidera o ranking de expulsões entre todos os órgãos federais, que os dois anos de pico foram os primeiros do governo que mais a protegeu, e que dezenas de policiais ficaram anos na ativa respondendo a processos por propina, o número deixa de ser estatística e vira retrato institucional.

Metodologia

Os dados foram obtidos via API do Portal da Transparência (endpoint /api-de-dados/ceaf) e cruzados com o sistema CGU-PAD (download mensal em dadosabertos-download.cgu.gov.br). A base do CEAF cobre publicações no DOU desde 2018. Registros duplicados (mesmo nome e mesma data em portarias distintas) foram identificados e sinalizados. O número de 213 é o total deduplicado por nome e mês de publicação. Todas as portarias citadas são públicas e consultáveis no Diário Oficial da União.