O The BR Insider cruzou 165 mil transações da base de emendas parlamentares (2024–2026) com pedidos de acesso à informação (LAI) enviados a dois órgãos do governo de Minas Gerais. O resultado: duas fabricantes chinesas de maquinário pesado, XCMG e LiuGong, concorrentes diretas no mercado brasileiro, dominam simultaneamente o canal federal de emendas e um contrato estadual pago com recursos do acordo judicial da Barragem de Fundão — o mesmo dinheiro destinado a reparar os municípios atingidos pelo rompimento, em 2015, da barragem da Samarco/BHP/Vale.

O contrato pago com dinheiro do Fundão

Em setembro de 2024, a Secretaria de Agricultura, Pecuária e Abastecimento de Minas Gerais (SEAPA) homologou o Pregão Eletrônico 45/2024 para compra de maquinário pesado — pás carregadeiras, retroescavadeiras e motoniveladoras. A XCMG Brasil Indústria Ltda., sediada em Contagem (MG) e de capital chinês, venceu os lotes 10 e 11; a LiuGong Latin America venceu o lote 12.

O que não estava óbvio até a resposta da LAI protocolada sob o número 01230.000104/2026-11, recebida pelo BR Insider em julho de 2026, é a origem do dinheiro. O empenho 314/2025 da SEAPA registra o histórico:

"Destinados à doação aos 38 municípios atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, em cumprimento ao acordo judicial para reparação integral e definitiva."

A fonte orçamentária é a 0.80.1 — recursos externos ao tesouro estadual, vinculados ao contrato de repasse 9474703, o instrumento do acordo judicial Samarco/BHP/Vale. Não são emendas parlamentares: é dinheiro de reparação de um dos maiores desastres ambientais do país, e ele foi para comprar máquinas de duas empresas chinesas.

O que cada uma vendeu

Segundo o contrato 009478789/2025 (SEI 1230.01.0006371/2025-23), obtido via LAI 01230.000115/2026-09, a SEAPA contratou da XCMG:

Lote Produto Modelo Quantidade final Valor unitário Total
10 Pá carregadeira XCMG LW300KV 30 R$ 361.000 R$ 10,83 milhões
11 Retroescavadeira XCMG XC870BR-I 30 R$ 310.000 R$ 9,30 milhões

O contrato começou com 26 e 24 unidades por lote e foi aditado para 30 e 30 — um acréscimo de 15% a 25% sobre o quantitativo original. Total pago à XCMG: cerca de R$ 20,13 milhões.

A LiuGong, pela LAI 01230.000111/2026-12 (16 documentos, respondida em julho de 2026), forneceu 29 motoniveladoras CLG4160D por R$ 587 mil cada — R$ 17,02 milhões, distribuídos em três contratos e um termo aditivo. O representante legal que assinou pela empresa foi Linjun Wang, de uma filial em Cariacica (ES).

Somadas, XCMG e LiuGong receberam R$ 37,15 milhões da SEAPA com dinheiro do Fundão — para equipar 36 e 29 municípios, respectivamente, ao longo do vale do Rio Doce: Mariana, Barra Longa, Rio Doce, Ouro Preto, Governador Valadares, Resplendor e outros, na rota que a lama de rejeitos percorreu de montante a jusante em novembro de 2015.

Assinaram os atos, segundo os documentos obtidos via LAI: o secretário da SEAPA, Thales Almeida Pereira Fernandes; o ordenador de despesa, Julian Silva Carvalho; e o superintendente da pasta, Gustavo de Lima Tavares Coimbra, que também respondeu ao pedido de acesso à informação. Pela XCMG, quem assinou contrato e aditivo foi Tian Dong.

Uma segunda porta: emendas parlamentares via IDENE

Há um segundo contrato estadual com a XCMG, desta vez pago com emendas parlamentares propriamente ditas — não com recursos do Fundão. O Instituto de Desenvolvimento do Norte e Nordeste de Minas Gerais (IDENE) comprou 11 escavadeiras hidráulicas XCMG XE150BR pelo Pregão Eletrônico 200/2021, com recursos da Fonte 71 — que o próprio termo de referência do edital identifica como "emendas parlamentares estaduais e federais".

A resposta à LAI 02420.000088/2026-91 (74 páginas) mostra uma disputa com apenas dois participantes, ambos ofertando o mesmo produto:

Empresa CNPJ Proposta unitária Total
XCMG Brasil Indústria Ltda. 14.707.364/0001-10 R$ 499.000 R$ 5.489.000
Triama Norte Tratores, Impl. Agrícolas e Máquinas 01.563.351/0001-73 R$ 690.000 (+38%) R$ 7.590.000

Não houve lances na fase de disputa aberta — a ata registra "não houve lances ofertados" e a XCMG venceu pela proposta inicial. A Triama Norte, que perdeu por uma margem de 38%, é distribuidora oficial da XCMG no nordeste de Minas Gerais — uma concorrente que vende o produto do próprio "concorrente" que a superou.

As 11 máquinas foram entregues a 11 municípios do norte e nordeste mineiro — de Miravânia a Governador Valadares — via dois pontos de distribuição, em Montes Claros e Governador Valadares. Assinaram o processo, pelo lado do IDENE, a pregoeira Priscila Karen Santos, a gerente de parcerias Camilla Aparecida Drumond e o ordenador de despesa André de Andrade Ranieri.

Somando SEAPA e IDENE, a exposição da XCMG ao orçamento público mineiro chega a R$ 25,62 milhões; com a LiuGong, o total estadual mapeado é de R$ 42,64 milhões.

O canal federal: XCMG é a maior receptora privada de emendas do país

A camada estadual é a ponta visível de um fenômeno muito maior no orçamento federal. Segundo o cruzamento da base emendas_favorecidos (165 mil transações, 2024–2026) feito pelo BR Insider, a XCMG Brasil recebeu R$ 311,8 milhões em emendas parlamentares de 66 autores diferentes, em 184 transações — o maior volume de qualquer empresa privada identificada na base, à frente de hospitais universitários, organizações sociais e empresas de tecnologia.

A LiuGong recebeu R$ 28,9 milhões de 16 autores. Juntas, as duas fabricantes somam cerca de R$ 340 milhões em emendas federais — sem contar os R$ 42,64 milhões da camada estadual mineira.

Os maiores financiadores federais da XCMG são bancadas estaduais, não parlamentares individuais:

Autor Tipo Total Período
Bancada do Rio Grande do Sul Bancada R$ 102 milhões 2024–2025
Bancada de Pernambuco Bancada R$ 32 milhões 2024–2025
Comissão de Agricultura e Reforma Agrária Comissão R$ 29 milhões 2025–2026
Bancada de Sergipe Bancada R$ 17 milhões 2024–2025
Bancada da Bahia Bancada R$ 16 milhões 2024–2025
Comissão de Integração Nacional e Desenvolvimento Regional Comissão R$ 13 milhões 2024–2025

A bancada gaúcha, sozinha, responde por quase um terço de toda a receita federal da XCMG — uma concentração atípica para uma fabricante sediada em Minas Gerais, sem vínculo aparente com o Rio Grande do Sul. O padrão de financiamento atravessa o espectro partidário: PT, PSOL, PL, PSDB, Podemos, Novo e PP aparecem entre os autores individuais, de Sergio Moro e Aécio Neves a Jaques Wagner e Glauber Braga.

O duopólio se confirma no comportamento dos financiadores

Onze autores federais destinaram recursos simultaneamente para XCMG e LiuGong — concorrentes diretas no mesmo mercado de maquinário pesado:

Autor XCMG LiuGong Total
Bancada da Bahia R$ 16,1 milhões R$ 10,3 milhões R$ 26,4 milhões
Bancada de Pernambuco R$ 31,9 milhões R$ 620 mil R$ 32,5 milhões
Bancada da Paraíba R$ 15,8 milhões R$ 1,86 milhão R$ 17,7 milhões
Comissão de Integração Nacional R$ 13,5 milhões R$ 1,25 milhão R$ 14,7 milhões

Financiar duas fabricantes concorrentes ao mesmo tempo não é diversificação técnica — é o retrato de um setor inteiro capturando o fluxo de emendas, independentemente de qual das duas empresas acaba vencendo cada licitação específica. O padrão se repete até dentro do Pregão 45/2024 da SEAPA: XCMG recorreu do lote que a LiuGong venceu, e a LiuGong recorreu dos lotes vencidos pela XCMG — concorrência real entre as duas, mas em um mercado no qual ambas saem ganhando.

O que ainda falta apurar

O BR Insider apurou, com base nas respostas às LAIs recebidas até setembro de 2026, a origem dos recursos, os valores contratados, os vencedores das licitações e os municípios beneficiados. Perguntas em aberto que orientam a continuidade da apuração: qual o objeto declarado de cada emenda federal destinada à XCMG e à LiuGong; se o acordo judicial do Fundão determinava especificamente a compra de maquinário chinês ou se a escolha coube à SEAPA; e se há vínculo societário entre a XCMG e a Triama Norte, sua distribuidora e "concorrente" derrotada no pregão do IDENE.

A existência de contratos e emendas em favor de XCMG e LiuGong não pré-julga, por si só, irregularidade na condução das licitações — a apuração documenta o fluxo de recursos e os padrões de concentração, não uma conclusão sobre a legalidade dos atos. O BR Insider busca o contraditório das partes mencionadas nesta reportagem; atualizações serão incorporadas ao texto conforme houver resposta.