Em 12 de maio de 2025, a deputada federal Caroline de Toni (PL-SC), de 38 anos, foi anunciada como a primeira colocada da edição daquele ano do Ranking dos Políticos. A nota foi 8,59 pontos. Foi a melhor pontuação da Câmara naquele recorte.

A notícia começou pelo PL Mulher, o braço institucional feminino do Partido Liberal. O release publicado na manhã daquela segunda-feira trazia a manchete "Deputada Carol De Toni é eleita a melhor parlamentar do Brasil pelo Ranking dos Políticos". Em até 24 horas, sete veículos jornalísticos reproduziram a notícia. Três deles publicaram a manchete idêntica, palavra por palavra. Os demais variaram o título de forma cosmética.

O cluster que cobriu foi específico. ND Mais (regional catarinense, do grupo Globo SC), OCP News (regional SC), Portal RBV (Rio do Sul/SC), Sou Catarina, TVBV Online (Chapecó/SC), e a Revista Oeste, do nicho conservador nacional. A imprensa generalista grande não publicou. Folha, Estadão, O Globo, CNN Brasil, Metrópoles e Poder360 não registraram a matéria em nenhum formato. A imprensa crítica, Carta Capital, Intercept, Brasil de Fato, também não. O título "melhor deputada do Brasil" ficou circulando dentro do mesmo perímetro político de onde havia partido.

A pergunta que essa edição responde é uma só: o que a deputada precisou fazer, segundo o Ranking dos Políticos, para ser considerada a melhor parlamentar do país?

A resposta começa pela régua.

Como funciona o Ranking dos Políticos

A organização que atribui o título publica a metodologia. Está no site, na aba "Critérios". A nota final de cada deputado é calculada assim:

Nota = [(V × 0,75) + (G × 0,10) + (PRE × 0,10) + (PRI × 0,05)] + [PL + AL] – [PRO]

Onde V é votações, G é gastos da cota parlamentar, PRE é presença, PRI é "privilégios" (que significa votar contra benefícios próprios da classe política), PL é produção legislativa, AL é articulação legislativa e PRO é penalidade por condenação judicial. Os pesos são fixos. PL e AL entram só como bônus de até 0,6 e 0,4 ponto, respectivamente, fora do núcleo da nota.

O peso decisivo, 75% do total, é V. A própria organização explica como esse índice funciona: cada projeto de lei recebe uma posição editorial do Ranking dos Políticos (a favor, contra, neutra), e o deputado pontua quando vota no sentido recomendado. A organização se descreve como liberal-conservadora. Quem vota mais alinhado com pauta liberal-conservadora, pontua mais.

Os 10% de gastos premiam quem gasta menos da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar (CEAP). Os 10% de presença premiam quem aparece mais às sessões. Os 5% de privilégios premiam quem vota contra aumentos salariais, recessos prolongados e benefícios da classe política. PL e AL são bônus pequenos.

A nota não mede quantos projetos do deputado viraram lei. Não mede impacto da produção dele. Não mede se as leis aprovadas resolveram problemas. O peso de "produção legislativa", no sentido jornalístico do termo, é zero no núcleo da fórmula e até 0,6 ponto no bônus, num índice que vai a 10.

Por que Caroline de Toni pontua tão alto

Com essa régua, faz sentido a deputada estar em primeiro. Os números do BR Insider, extraídos do banco de dados oficial da Câmara, mostram um perfil parlamentar que atende a quatro dos cinco critérios da fórmula com folga.

Votações alinhadas com a pauta conservadora. O índice G5 do BR Insider, que agrega concordância partidária e padrão de voto, registra para a deputada uma "concordância partido" de 83,12%, indicador alto. Como vice-líder da Minoria (desde 30 de abril de 2026) e da Oposição (desde 6 de maio do mesmo ano), ela vota fielmente com a linha do PL, que coincide com a pauta editorial do Ranking em quase todas as questões: privatizações, anti-aborto, pró-armas, marco temporal, restrições ao STF.

Gastos baixos da cota, pelo menos até 2024. Em 2023 e 2024, ela gastou R$ 149 mil e R$ 184 mil da CEAP, posicionando-se em 472ª e 471ª entre os 513 deputados. Foi essa fase que produziu a propaganda "deputada mais econômica do Brasil", reproduzida pelo Tudo Sobre Xanxerê e outros veículos locais. Em 2025, o gasto saltou para R$ 350 mil, 90% maior que o do ano anterior. Não houve reportagem que registrasse o salto. O sub-bloco abaixo entra nesse ponto.

Presença de 70%. Aparece em 7 de cada 10 sessões. Acima da mediana da Câmara, mas longe das deputadas e deputados que beiram 100%.

Privilégios: vota contra "regalia". Acompanha a linha do PL em rejeitar aumentos próprios da classe e isso pontua.

O bônus de produção legislativa, até 0,6 ponto, é onde estaria o teste de "se fez lei". E é onde a deputada não entrega.

Em oito anos, zero leis sancionadas

Caroline de Toni foi eleita deputada federal pela primeira vez em 2018, pelo PSL. Reeleita em 2022 pelo PL. Está no segundo mandato consecutivo, na 57ª legislatura. Em sete anos e meio de Câmara, segundo a base de dados oficial, ela é autora primária de 47 Projetos de Lei (PL), 13 Projetos de Decreto Legislativo (PDL), três Projetos de Lei Complementar (PLP) e três Projetos de Resolução da Câmara (PRC). Soma 66 proposições substantivas como autora.

Dessas 66, nenhuma foi sancionada como lei.

Em 2025, ano de maior produção dela em toda a legislatura, foram 37 projetos novos apresentados. Um foi aprovado em plenário. Os demais aguardam tramitação em comissões ou foram arquivados. Os números coincidem com o que a CartaCapital, o Jornal de Brasília e o NDmais reportaram em apurações independentes.

A explicação mais comum é que a deputada migrou a produção parlamentar dela para o cargo de presidente da CCJ, que assumiu em 6 de fevereiro de 2024 e manteve até o início de 2026. Os números desse trabalho são públicos: 62 reuniões realizadas, 1.204 proposições aprovadas pela comissão e 4.155 relatorias distribuídas. Sob a gestão dela, a CCJ aprovou a PEC 164/2012 (PEC da Vida), o PL 1342/2019 (que restringe a aplicação do conceito de "casa" no crime de invasão domiciliar), a PEC 45/2023 (criminalização de porte e posse de drogas), o PL 1496/2021 (DNA obrigatório de condenados), o PLP 108/2023 (estados legislarem sobre porte de arma), uma PEC que limita decisões monocráticas de ministros do STF e outra que permite ao Congresso sustar decisões do Supremo.

São vitórias importantes para a pauta conservadora. O que elas não são é produção legislativa primária dela. São pautas de outros deputados que ela conduziu como presidente da comissão.

A diferença importa para a leitura do título "melhor deputada". A pessoa que mais influenciou a agenda conservadora na CCJ em 2024 e 2025, sob esse recorte, foi ela. A pessoa que mais entregou projetos próprios virados em lei, não.

Sub-bloco: a "deputada mais econômica" deixou de existir em 2025

Em fevereiro de 2025, o site Tudo Sobre Xanxerê publicou uma matéria com o título "Uma das deputadas mais econômicas do Brasil, Caroline de Toni fala sobre projetos para 2025". A reportagem citava o dado de 2024: R$ 41 mil gastos de R$ 151 mil disponíveis da cota.

A base oficial da Câmara, extraída em junho de 2026, mostra que os gastos de CEAP da deputada Caroline de Toni evoluíram assim:

Ano Gasto CEAP (R$) Posição entre 513 Documentos
2023 149.467 472ª 190
2024 183.739 471ª 249
2025 350.139 467ª 361
2026 (parcial até abr) 82.802 487ª 104

O salto entre 2024 e 2025 foi de 90,5%. Em valores absolutos, R$ 166 mil a mais em um ano. A maior parte do aumento se concentrou em três categorias: passagens aéreas SIGEPA (+82%, de R$ 80 mil para R$ 145 mil), locação de veículos (+201%, de R$ 39 mil para R$ 117 mil) e combustíveis (+112%).

A coincidência cronológica é direta. Em meados de 2025, a deputada começou a aparecer em pesquisas de intenção de voto para a vaga ao Senado em 2026. Em pesquisa AtlasIntel divulgada em maio de 2026, ela lidera com 30,7% das intenções, à frente de Esperidião Amin (PP) e Carlos Bolsonaro (PL).

Mais viagens entre Brasília e Santa Catarina. Mais carros alugados para circulação no estado. Mais combustível. O contracheque da deputada, financiado pelo contribuinte, sustentou parte do que parece ter sido a fase de construção da pré-candidatura.

Nenhum dos veículos que repetiu o título "melhor deputada" em maio de 2025 registrou o salto. Em parte porque o Ranking dos Políticos é calculado com defasagem (a edição de maio de 2025 ainda usava como referência os gastos baixos de 2024). Em parte porque ninguém foi olhar.

A próxima edição desta série, prevista para julho, vai destrinchar a outra peça desse arranjo: quem pagou as campanhas dela.

A imprensa que reproduziu sem auditar

A varredura sistemática feita pelo BR Insider entre 12 de maio de 2025 e 17 de junho de 2026 identificou sete veículos jornalísticos que reproduziram a notícia "Caroline de Toni eleita melhor deputada do Brasil pelo Ranking dos Políticos". Todos publicaram no mesmo dia 12 de maio. A oitava reprodução, datada de 31 de julho, é uma matéria de continuidade da OCP News com recorte estadual.

# Veículo Categoria Hora 12/05/2025
1 PL Mulher (release fonte) Institucional partidário Manhã (texto-base)
2 ND Mais Regional SC 08h02
3 Portal RBV Regional SC dia
4 Revista Oeste Conservador nacional dia
5 TVBV Online Regional SC dia
6 Sou Catarina Regional SC dia
7 OCP News Regional SC 19h05

Três dessas matérias usaram a manchete idêntica do release: "Deputada Carol De Toni é eleita a melhor parlamentar do Brasil pelo Ranking dos Políticos" (PL Mulher, Sou Catarina e OCP News). Variações cosméticas em ND Mais ("considerada a melhor"), Portal RBV ("lidera ranking nacional"), Revista Oeste ("é eleita a melhor parlamentar do país") e TVBV ("reconhecimento à Caroline").

A imprensa generalista grande não cobriu. Folha de S.Paulo, Estadão, O Globo, CNN Brasil, Metrópoles, Poder360, Veja e a maior parte da mídia conservadora nacional (Pleno News, O Antagonista, Gazeta do Povo, Brasil 247) não publicaram a notícia em qualquer formato. A imprensa crítica também não, nem para reproduzir nem para questionar. Carta Capital, Intercept, Brasil de Fato, Diário do Centro do Mundo: nenhum registro.

Em nenhum dos sete veículos que cobriram houve explicação da fórmula 75/10/10/5 do Ranking. Em nenhum houve menção ao teto de 0,6 ponto para produção legislativa. Em nenhum houve contraposição com os números reais de aprovação dos projetos dela. Em nenhum houve contraditório de oposição, especialista em métricas legislativas ou fonte do próprio Ranking.

O caminho da notícia é nítido. O release foi escrito pela assessoria do PL Mulher, distribuído por e-mail a redações regionais catarinenses e ao nicho conservador nacional, e republicado em texto quase literal. A organização que dá o nome ao prêmio, o Ranking dos Políticos, não fez divulgação pública própria em maio de 2025: a divulgação oficial deles concentra-se na premiação anual Excelência Parlamentar, em dezembro, que naquele mesmo ano coroou Marcel Van Hattem (Novo-RS) e Efraim Filho (UB-PB) e foi noticiada pelo Poder360, sem mencionar Caroline.

A história não é, portanto, "a grande imprensa reproduziu sem auditar". A história é mais específica. Um cluster regional catarinense e um nicho conservador nacional reproduziram um release distribuído pelo próprio partido da deputada, sem checar a régua que sustentava o título. E o nome "melhor deputada do Brasil" circulou dali pra frente como se tivesse sido conferido por uma comissão jornalística independente, quando havia saído da assessoria política e voltado para a assessoria política, com a mesma manchete, intacta.

A consequência é a mesma. O selo "melhor deputada" vira moeda eleitoral. Aparece em material de campanha. Funciona em pesquisa. Constrói candidatura ao Senado. E quem repete o título sem checar a fórmula entrega, de graça, uma palavra de honra jornalística que nunca foi emitida por ninguém em condição de jornalismo.

Direito de réplica

Antes da publicação, esta reportagem procurou:

  • A assessoria de imprensa da deputada Caroline de Toni, por e-mail (dep.carolinedetoni@camara.leg.br) em 17 de junho de 2026, com perguntas específicas sobre (a) zero projetos sancionados em oito anos; (b) salto de 90% no CEAP em 2025; (c) como ela explica ter sido eleita "melhor deputada" sem entregas legislativas próprias. Procurada, a assessoria não respondeu dentro do prazo de 72 horas estabelecido.
  • O Ranking dos Políticos, por meio dos contatos institucionais, com perguntas sobre (a) a justificativa do peso de 75% para "votações alinhadas com a posição da organização"; (b) qual o protocolo de auditoria sobre a reprodução do título "melhor deputado" pela imprensa. O Ranking dos Políticos não respondeu dentro do prazo de 72 horas estabelecido.

Caso alguma das respostas chegue após a publicação, esta edição será atualizada com a íntegra.

O que fica

O título "melhor deputada do Brasil" coroou, em maio de 2025, uma parlamentar que pauta com fidelidade a agenda do PL bolsonarista, gasta menos cota que os pares em 2023 e 2024 (não mais em 2025), comparece a 7 de 10 sessões e vota contra aumentos salariais da classe. Pela régua do Ranking dos Políticos, ela é, sim, a melhor.

Pela régua jornalística, que pede entrega legislativa visível, presença real nos debates e coerência entre discurso e prática, o título precisaria de pelo menos um asterisco. Quem reproduziu não pôs o asterisco, porque quem reproduziu, na maior parte, foi a imprensa do mesmo perímetro político do qual partiu o release. O título não atravessou para fora desse perímetro.

Isso, em si, é a melhor pista da força real do prêmio: ele existe para circular dentro de casa.

A próxima edição da série fecha o triângulo. Como uma deputada de primeira legislatura, de uma cidade do interior catarinense, sem fundo eleitoral do PL e com uma campanha de R$ 82 mil em 2018, multiplicou por nove o caixa em 2022 e captou R$ 746 mil com a ajuda de três nomes: o fundador do Grupo Bueno Netto (Parque Global, no Morumbi), o ex-secretário de Desestatização do governo Bolsonaro (José Salim Mattar Jr) e o irmão dela mesma, em uma campanha que cruzou a rede nacional do bolsonarismo institucional.


Como esta apuração foi feita

Os dados financeiros, de cota parlamentar e de proposições legislativas vêm da base do BR Insider, alimentada por ingestão direta das tabelas do Portal da Câmara dos Deputados, do TSE DivulgaCandContas e do Portal da Transparência da União. Snapshot: junho de 2026.

A metodologia do Ranking dos Políticos foi auditada na fonte oficial: a página de critérios da própria organização (ranking.org.br/criterios-e-metodologia). Os pesos exatos da fórmula foram replicados ao pé da letra.

A reprodução do título "melhor deputada do Brasil" foi mapeada por busca sistemática em mecanismos de pesquisa e por verificação direta (operador site:) em 47 domínios da imprensa brasileira, no intervalo de 12 de maio de 2025 a 17 de junho de 2026. Os sete veículos confirmados são os encontrados nessa janela com publicação efetivamente indexável e datada. É possível que outros tenham reproduzido sem indexação suficiente para aparecer na busca, ou em redes sociais sem deixar rastro estável. A lista é, portanto, um piso, não um teto. Verificação completa, com URLs, datas e categorização, está no anexo público desta apuração.

Esta série tem duas edições. A próxima entra no triângulo financeiro da campanha de 2022.


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